sexta-feira, 16 de outubro de 2009

DANÇA DE RODA

De repente, saltei do ônibus. Encontrava-me entre o desejo de fazê-lo e o de continuar a viagem, que pouco adiante me deixaria no escritório. Havia razão para a decisão súbita. Coisas da memória, da saudade. Tratava-se do bairro em que passara a infância e parte da adolescência.
Restara uma canção de roda memoriada para o sempre, nos
recônditos do que sou. A visão surpreendeu algumas crianças na velha praça, despertando o menino serelepe que me habita, num canto qualquer da subconsciência. Isso me levou a descer do coletivo.
Ainda verdoengo, senti a emoção de segurar as mãos e olhar nos olhos da menina-namorada. Noite de verão, luar e sorvete; noite de ficar aceso, concatenando o primeiro enredo de amor ou sonho, no galanteio amadoríssimo de quem ainda não provara a ardência do beijo-beijo.
Durante a dançarola, sob canções folclóricas, enrubesciamos na intimidade das mãos intermediando emoções estranhas, nunca provadas.
Nas entrelinhas do escopo, o menino se atiçava para impedir que as mãos da mocinha brincassem com as mãos de outro menino.
A noite era linda, cheirava a flor de laranjeira; a noite era curta, na expectativa do enamorado; a noite era amiga, clara e mágica nos jovens corações. Talvez ninguém notasse nada, pois tudo acontecia longe da realidade, do mundo, do futuro. Vivia-se um presente visceral; manteve-se vivo na minha memória por causa das intensidades.
Sob o caramanchão formado pelo maracujazeiro, donde pendiam frutos doirados, enorme e doces, seguia o processo de encantamento. Como tudo foi bom!
Ao descer do ônibus, num banco da praça, soltei o pensamento. Despertei, perguntando-me onde se escondiam as danças de roda, neste ao depois de tudo, da lua cheia e do sorvete de limão. Que muro escondia o mistério da convivência, trazendo o esquecimento das mãos, dos beijos e das emoções, transformando mágicos instantes em coisas do lado de lá?
Foram-se ruas, velhas árvores, risos, jardins e sonhos. Sequer uma nota das antigas canções, como se um lacre encerrasse vivências, cenários e fatos, sacrificando anseios de repenetração da alma nos devaneios.
Não há reviçamento. Obsta-se a passagem da boa primavera, onde viceja a consciência e se abandonam tragédias outonais.
Bastaria uma canção simetrizando o agora em gotas de sonhos; geraria compreensão para entender ausências e aceitar a solidão.
Retornei à parada de ônibus. Tudo naquela praça tratava do enredo metafísico das quimeras. Mas nada importaria, se o presente se revestisse das velhas reminiscências, transmitindo a sensação de permanente revivência, consolidando as mãos nas mãos da primeira namorada e o beijo do primeiro sonho. Eis, aí, na ausência de tudo, o importante que me faria feliz para suportar tantas mudanças, essas desagradáveis mudanças!